12 Setembro 2007
Ainda estou para descobrir quanto tempo dura este maldito oficial luto que se é suposto fazer quando se perde alguém que se julgava ter para sempre.
(...)
01 Dezembro 2011
shava and a haircut
Nada é mais libertador e sincero do que ir cortar o cabelo. Há qualquer coisa de mágico no tinir das tesouras, no libertar de camadas de peso, como se houvesse uma espécie de desintoxicação mental que cai sem defesas no chão e me faz levantar a moral.
Esperada desilusão, é que demoro sempre demasiado tempo. Insistindo na falta de corte e composição, lutando com todos os meios disponíveis para manter a forma de algo que, simplesmente, deixou de ser.
Algo semelhante a uma flor que se vê murchar, mas que se continua somente a regar em vez de lhe dar uma poda e uns ajustes de terra.
Desta última vez, entreguei-me quase ao degredo. Tantos meses a repetir o mantra do deixar crescer, deixar crescer, deixar crescer levam uma pessoa como eu ao desespero. Principalmente porque deixar crescer implica desenvolver um formato socialmente correcto da franja milimetricamente alinhada, a perfeição do escadeado e as madeixas em três ou quatro tons de Farandol louro.
E depois, o que se faz? Anda-se com o cabelo solto, na mesma posição. Todos, todos, todos os dias. De vez em quando faz-se um rabo de cavalo. Ou usa-se um qualquer acessório com laço cuidadosamente adquirido num franchising de centro comercial, e que está provado ser de sucesso porque os restante 80% da população feminina também o usa.
Isto irritava-me solenemente. Utilizo o pretérito porque actualmente reconheço a diferença face ao resto do mundo não como algo digno de investidura a toque de trombetas de guerra, mas cuidadosamente aprendo que não sou peça de encaixe standard, há que viver com isso sem pensar que o resto do mundo está errado.
Eles estão certos na sua maneira, eu certa estarei deste lado da fronteira, não havendo misturas porque simplesmente há coisas em que não vale a pena insistir, tal como investir contra moinhos.
Esse processo de desconstrução da realidade é algo doloroso e bastante interno, é como treinar os olhos para ver humanos onde antes havia máquinas de guerra ofensivas.
É ter os braços cansados e em riste, sempre em investida, dormentes de tantas noite em branco com a arma nos braços, protegendo uma fortaleza que se tornou inerte de tanto se proteger do mundo.
É aprender a nomear cores e cheiros, em vez de desagradar tudo porque nada voltará a ter o doce sabor de algo tão distante que já nem sequer se lembra ao que sabia.
É sobretudo, ter um nó na garganta de dizer adeus a esse monstro que se tornou inócuo, inodoro e sensaborão porque não tem mais qualquer sentido de vida. Mas que mesmo assim esteve tanto tempo a acicatar-me que mal posso respirar sem o seu impulso.
Talvez seja a mesma sensação de saltar para um espaço vazio, perceber que afinal temos sustentação, e temos pernas, e braços para nos agarrar e bater e finalmente voar e mesmo assim cair redondamente no chão e perceber porque caímos porque não sabemos voar. Eventualmente haverá uma mão que nos puxa, sacode o pó, não para nos dar um calduço e gozar da nossa incapacidade.
And this is were I get confused.
Porque não entendo a quem devo ter ficado no desespero daquela mão que passou um atestado de estupidez e que agora não permite que eu recupere a minha serenidade mental.
Esperada desilusão, é que demoro sempre demasiado tempo. Insistindo na falta de corte e composição, lutando com todos os meios disponíveis para manter a forma de algo que, simplesmente, deixou de ser.
Algo semelhante a uma flor que se vê murchar, mas que se continua somente a regar em vez de lhe dar uma poda e uns ajustes de terra.
Desta última vez, entreguei-me quase ao degredo. Tantos meses a repetir o mantra do deixar crescer, deixar crescer, deixar crescer levam uma pessoa como eu ao desespero. Principalmente porque deixar crescer implica desenvolver um formato socialmente correcto da franja milimetricamente alinhada, a perfeição do escadeado e as madeixas em três ou quatro tons de Farandol louro.
E depois, o que se faz? Anda-se com o cabelo solto, na mesma posição. Todos, todos, todos os dias. De vez em quando faz-se um rabo de cavalo. Ou usa-se um qualquer acessório com laço cuidadosamente adquirido num franchising de centro comercial, e que está provado ser de sucesso porque os restante 80% da população feminina também o usa.
Isto irritava-me solenemente. Utilizo o pretérito porque actualmente reconheço a diferença face ao resto do mundo não como algo digno de investidura a toque de trombetas de guerra, mas cuidadosamente aprendo que não sou peça de encaixe standard, há que viver com isso sem pensar que o resto do mundo está errado.
Eles estão certos na sua maneira, eu certa estarei deste lado da fronteira, não havendo misturas porque simplesmente há coisas em que não vale a pena insistir, tal como investir contra moinhos.
Esse processo de desconstrução da realidade é algo doloroso e bastante interno, é como treinar os olhos para ver humanos onde antes havia máquinas de guerra ofensivas.
É ter os braços cansados e em riste, sempre em investida, dormentes de tantas noite em branco com a arma nos braços, protegendo uma fortaleza que se tornou inerte de tanto se proteger do mundo.
É aprender a nomear cores e cheiros, em vez de desagradar tudo porque nada voltará a ter o doce sabor de algo tão distante que já nem sequer se lembra ao que sabia.
É sobretudo, ter um nó na garganta de dizer adeus a esse monstro que se tornou inócuo, inodoro e sensaborão porque não tem mais qualquer sentido de vida. Mas que mesmo assim esteve tanto tempo a acicatar-me que mal posso respirar sem o seu impulso.
Talvez seja a mesma sensação de saltar para um espaço vazio, perceber que afinal temos sustentação, e temos pernas, e braços para nos agarrar e bater e finalmente voar e mesmo assim cair redondamente no chão e perceber porque caímos porque não sabemos voar. Eventualmente haverá uma mão que nos puxa, sacode o pó, não para nos dar um calduço e gozar da nossa incapacidade.
And this is were I get confused.
Porque não entendo a quem devo ter ficado no desespero daquela mão que passou um atestado de estupidez e que agora não permite que eu recupere a minha serenidade mental.
01 Agosto 2011
Third party
Dita a sabedoria popular que nem uma colher se deve interpor entre o sagrado laço que une duas criaturas de espécie humana.
Será que, dada a abundância de estados no Facebook, se poderá generalizar esta tendência a qualquer tipo de laço emocional que se criam entre duas pessoas?
Existe um botão de pânico em qualquer telefone feminino - senão muitos - que se activa em caso de discussão, insulto ou simplesmente "ohmeudeus-não-acredito-que-ele-me-está-a-enganar". Carrega-se no dial, e convoca-se o conselho de guerra.
Felizmente estou rodeada de almas insensíveis que me esbofeteiam de cada vez que entro em psicose emocional. Em primeiro, é-me logo avisado que tudo o que suceder é da minha inteira responsabilidade. Logo aí, perdi completamente o jogo.
De seguida, e tentando explicar o ponto de vista de ambas as partes envolvidas - dado que há muito que a posição de pobre vítima indefesa me foi barrada com todas as armas dada a minha inépcia emocional - tento perceber que novo tipo de erro relacional, não descrito em nenhum manual, mito urbano, ou conversa de café pós terminar de relação profunda de meses com o tipo que se pensava ser o tal.
Depostas as armas, é como se encarasse o meu próprio reflexo, ao qual é necessário colocar legendas com bonecos esclarecedores para que perceba realmente o busílis da questão.
Dada a minha tendência para a asneira, desenvolvi um extraordinário jogo de cintura - não obstante as camadas adiposas - que me permite desviar das balas acusatórias, ou mais ainda, agarrá-las com os dentes e cuspi-las de volta.
Infelizmente, fiquei mentalmente retardada depois de tanto volte-face.
Actualmente não consigo argumentar verbalmente sem contestar a outra parte.
O que significa que tenho alguma grande dificuldade em encarar os problemas dos outros como:
a) algo causado por mim
b) algo que eu possa ajudar a resolver
c) algo com que eu me possa preocupar
d) todos os anteriores
Inconscientemente devo ter o maior mal de consciência do mundo (permitam-me aqui uns traços de vitimização,só para conservar a prática), algo perfeitamente inútil uma vez que a minha capacidade de interacção emocional é largamente suplantada por uma ameba em começo de evolução que comunica com reflexos involuntários.
O que me faz profundamente infeliz.
Assim aquela sensação de acordar a meio da noite e pensar que se perdeu o braço porque não se sente e depois vem um formigueiro estranho que nos leva a panicar ainda mais porque parece que o membro que já lá não está voltou a estar, o que nos leva a pensar em assombrações e almas penadas quando afinal tudo o que aconteceu foi termos adormecido em cima do braço.
Será que, dada a abundância de estados no Facebook, se poderá generalizar esta tendência a qualquer tipo de laço emocional que se criam entre duas pessoas?
Existe um botão de pânico em qualquer telefone feminino - senão muitos - que se activa em caso de discussão, insulto ou simplesmente "ohmeudeus-não-acredito-que-ele-me-está-a-enganar". Carrega-se no dial, e convoca-se o conselho de guerra.
Felizmente estou rodeada de almas insensíveis que me esbofeteiam de cada vez que entro em psicose emocional. Em primeiro, é-me logo avisado que tudo o que suceder é da minha inteira responsabilidade. Logo aí, perdi completamente o jogo.
De seguida, e tentando explicar o ponto de vista de ambas as partes envolvidas - dado que há muito que a posição de pobre vítima indefesa me foi barrada com todas as armas dada a minha inépcia emocional - tento perceber que novo tipo de erro relacional, não descrito em nenhum manual, mito urbano, ou conversa de café pós terminar de relação profunda de meses com o tipo que se pensava ser o tal.
Depostas as armas, é como se encarasse o meu próprio reflexo, ao qual é necessário colocar legendas com bonecos esclarecedores para que perceba realmente o busílis da questão.
Dada a minha tendência para a asneira, desenvolvi um extraordinário jogo de cintura - não obstante as camadas adiposas - que me permite desviar das balas acusatórias, ou mais ainda, agarrá-las com os dentes e cuspi-las de volta.
Infelizmente, fiquei mentalmente retardada depois de tanto volte-face.
Actualmente não consigo argumentar verbalmente sem contestar a outra parte.
O que significa que tenho alguma grande dificuldade em encarar os problemas dos outros como:
a) algo causado por mim
b) algo que eu possa ajudar a resolver
c) algo com que eu me possa preocupar
d) todos os anteriores
Inconscientemente devo ter o maior mal de consciência do mundo (permitam-me aqui uns traços de vitimização,só para conservar a prática), algo perfeitamente inútil uma vez que a minha capacidade de interacção emocional é largamente suplantada por uma ameba em começo de evolução que comunica com reflexos involuntários.
O que me faz profundamente infeliz.
Assim aquela sensação de acordar a meio da noite e pensar que se perdeu o braço porque não se sente e depois vem um formigueiro estranho que nos leva a panicar ainda mais porque parece que o membro que já lá não está voltou a estar, o que nos leva a pensar em assombrações e almas penadas quando afinal tudo o que aconteceu foi termos adormecido em cima do braço.
of all the reasons
Pelas quais adoro discutir contigo, é que invariavelmente acabo inspirada para escrever.
21 Julho 2011
You are the last of the ladies
Eis que num passado recente ouvi atentamente mais um daqueles discursos melosos daqueles casais perdidos nos olhos um do outro, tão siameses que nem uma equipa de cirurgiões universitários liderados pelo Dr. House e secundados pelo cast completo do Holby City poderiam impedir o massacre. Uma espécie de richandamy da vida real.
Ora, a que ponto o cérebro é capaz de emitir feromonas a uma velocidade constante, em catadupa, qual efeito de droga nas veias, que nos faz ficar pedrados de amor vinte e quatro sob vinte e quatro horas.
Até que ponto se consegue viver assim, tão na corda bamba emocional de felicidade sem ter a mais pequena divergência, sem ter um ponto de discórdia, desentendimento ou simplesmente disparidade de opiniões.
E nisso pensando, quão grande será a abnegação de uma parte a outra, o desfalecer de forças e vontades face a uma entidade dominante, alpha, sem que daí advenha uma vontade de rebelião.
Ou se calhar são telepatas.
Ora, a que ponto o cérebro é capaz de emitir feromonas a uma velocidade constante, em catadupa, qual efeito de droga nas veias, que nos faz ficar pedrados de amor vinte e quatro sob vinte e quatro horas.
Até que ponto se consegue viver assim, tão na corda bamba emocional de felicidade sem ter a mais pequena divergência, sem ter um ponto de discórdia, desentendimento ou simplesmente disparidade de opiniões.
E nisso pensando, quão grande será a abnegação de uma parte a outra, o desfalecer de forças e vontades face a uma entidade dominante, alpha, sem que daí advenha uma vontade de rebelião.
Ou se calhar são telepatas.
26 Abril 2011
sing sang sung
Tanta teoria linguística revela-se perfeitamente inútil face á minha incapacidade de verbalizar correctamente qualquer tipo de argumento quando o outro interveniente se tornou de repente, pouco atractivo.
Todos os dias entro por aquele espaço adentro com uma leve sensação de arrependimento,
com o objectivo de me penitenciar e tentar pronunciar um bom dia mais ou menos melodioso.
Raramente resulta, por isso rapidamente mudo para o item seguinte da tarefa, que é ir á cozinha fazer café. Mas como toda a bolha se desfez entretanto, não resta outra hipótese senão enrodilhar os saltos na carpete e em vez de deslizar confiante em direcção ao antro proteccionista que é uma copa meio escura em cujo frigorífico se poderia jogar System Chock sem nunca encontrar o caminho de volta para este universo.
Não me deixando abater com isso, procuro ler as notícias e degustar o café com a mesma velocidade que subi os degraus do edifício. Supersónica, não vão os meus olhos perder algum músculo que me permite endireitar os óculos sem mexer o nariz - isto no outro universo paralelo, é claro.
Entre várias conversas inúteis em registos cuidadosamente não guardados em pastas partilhadas e não acessíveis por almas dedicadas que gostam de confirmar a quantidade de espaço existente na drive partilhada, não vá toda uma equipa de ITs descurar esse tipo de tarefas elementares do seu entretido dia entre sucessivas visitas aos servidores e para verificar o bom estado das máquinas de café e dos cinzeiros, surgirá a importante hora do almoço, em que finalmente se fica a par das tendências do mercado. Através de cuidadosa observação dos modelos de roupa feminina adquiridos nos vários franchisings, ou adivinhação do poder de compra das massas através do tipo de sapatos que trazem calçados. O modo de andar das mesmas indica claramente o estatuto social, com tendência crescente para o "em ascenção", que habitualmente resulta em queda abrupta, que nem o salário a partir do dia oito de cada mês.
A meio da tarde há sempre o habitual convívio social no exterior, afim de auscultar outros mercados existentes, sejam esses os novos modelos disponíveis nas outras áreas de actuação - de outras empresas existentes no mesmo edifício, ou da mesma área financeira, mas em diferentes localizações - colegas de outros departamentos.
Final de tarde é simplesmente feito ao nanossegundo, em que o e-sistema de ponto dita uma hora específica, sendo de fácil cálculo a hora exacta a que se deve picar a saída e fugir como se o autocarro estivesse já ali na paragem.
Todos os dias entro por aquele espaço adentro com uma leve sensação de arrependimento,
com o objectivo de me penitenciar e tentar pronunciar um bom dia mais ou menos melodioso.
Raramente resulta, por isso rapidamente mudo para o item seguinte da tarefa, que é ir á cozinha fazer café. Mas como toda a bolha se desfez entretanto, não resta outra hipótese senão enrodilhar os saltos na carpete e em vez de deslizar confiante em direcção ao antro proteccionista que é uma copa meio escura em cujo frigorífico se poderia jogar System Chock sem nunca encontrar o caminho de volta para este universo.
Não me deixando abater com isso, procuro ler as notícias e degustar o café com a mesma velocidade que subi os degraus do edifício. Supersónica, não vão os meus olhos perder algum músculo que me permite endireitar os óculos sem mexer o nariz - isto no outro universo paralelo, é claro.
Entre várias conversas inúteis em registos cuidadosamente não guardados em pastas partilhadas e não acessíveis por almas dedicadas que gostam de confirmar a quantidade de espaço existente na drive partilhada, não vá toda uma equipa de ITs descurar esse tipo de tarefas elementares do seu entretido dia entre sucessivas visitas aos servidores e para verificar o bom estado das máquinas de café e dos cinzeiros, surgirá a importante hora do almoço, em que finalmente se fica a par das tendências do mercado. Através de cuidadosa observação dos modelos de roupa feminina adquiridos nos vários franchisings, ou adivinhação do poder de compra das massas através do tipo de sapatos que trazem calçados. O modo de andar das mesmas indica claramente o estatuto social, com tendência crescente para o "em ascenção", que habitualmente resulta em queda abrupta, que nem o salário a partir do dia oito de cada mês.
A meio da tarde há sempre o habitual convívio social no exterior, afim de auscultar outros mercados existentes, sejam esses os novos modelos disponíveis nas outras áreas de actuação - de outras empresas existentes no mesmo edifício, ou da mesma área financeira, mas em diferentes localizações - colegas de outros departamentos.
Final de tarde é simplesmente feito ao nanossegundo, em que o e-sistema de ponto dita uma hora específica, sendo de fácil cálculo a hora exacta a que se deve picar a saída e fugir como se o autocarro estivesse já ali na paragem.
08 Abril 2011
True love will find you in the end
Ocorreu-me utilizar este cliché meloso afim de o constatar com toda a minha força argumentativa que tal como os potes de ouro ao final do arco íris, é uma farsa.
Se assim fosse eu tinha ficado aqui sentadinha no meu pufe a concluir mais uma tela de ponto pé de flor a olhar para janela com ar esperançoso a ver se finalmente as minhas sapatilhas brancas da Nike com anos de sujidade em cima seriam finalmente substituidas por uns quaisquer sapatos decentes ao estilo Merrel mas com estilo e a combinar com o resto da roupa bem ao estilo de qualquer maníaca de casamentos que até a cor das velas tem de ser um pantone especial inspirado no desabrochar das rosas de chá brancas num dia de nublado a dar para o médio tipo aquela luz intermédia entre branco e fosco que se vê por vezes em alguns vidros sujos do comboio quando o sol de final de dia irrompe por entre os grafitis e revela silhuetas bonitas de se tirar uma fotografia digna da competição da Magnum mas que foi exactamente o dia em que a máquina ficou em casa porque se optou por levar o equipamento de ginásio e afinal não se foi porque estava sol e alguém te desencaminhou para ficar ali sentada nos bancos da esplanada a ver as pessoas a passar e toda a gente conversa e tu bebes a imperial com mal de consciência a ingerir o líquido que injustamente deverias ter queimado nessa mesma hora e vais constatar isso mais tarde a caminho de casa com fome.
Pois.
Se assim fosse eu tinha ficado aqui sentadinha no meu pufe a concluir mais uma tela de ponto pé de flor a olhar para janela com ar esperançoso a ver se finalmente as minhas sapatilhas brancas da Nike com anos de sujidade em cima seriam finalmente substituidas por uns quaisquer sapatos decentes ao estilo Merrel mas com estilo e a combinar com o resto da roupa bem ao estilo de qualquer maníaca de casamentos que até a cor das velas tem de ser um pantone especial inspirado no desabrochar das rosas de chá brancas num dia de nublado a dar para o médio tipo aquela luz intermédia entre branco e fosco que se vê por vezes em alguns vidros sujos do comboio quando o sol de final de dia irrompe por entre os grafitis e revela silhuetas bonitas de se tirar uma fotografia digna da competição da Magnum mas que foi exactamente o dia em que a máquina ficou em casa porque se optou por levar o equipamento de ginásio e afinal não se foi porque estava sol e alguém te desencaminhou para ficar ali sentada nos bancos da esplanada a ver as pessoas a passar e toda a gente conversa e tu bebes a imperial com mal de consciência a ingerir o líquido que injustamente deverias ter queimado nessa mesma hora e vais constatar isso mais tarde a caminho de casa com fome.
Pois.
06 Abril 2011
There are two colours in my head.
Parece que o cinzento da burocracia impera no lado errado da vida, quando deveria calmamente impor-se nas oito horas declaradamente passadas numa realidade alternativa onde o tempo dura mais que uma era geológica. Onde a cor da bandeira corporativa deu lugar a um verde assim meio desmaiado, daquelas tshirts que passaram muitas vezes pela máquina e que se assumiam como o símbolo duma era passada, que devia ser justamente relegado para o fundo da gaveta, como sabiamente fizeram com os chumaços. Infelizmente, com a moda dos zombies e dos hipsters tudo isso regressou.
Onde actualmente impera o democrático preto que vai com tudo e não vai com nada, qual gótico deprimido que se funde com o background dos wallpapers do twilight. Afinal de contas todas as lojas dos shoppings vendem tons pastel e floridos repetidos com mais precisão que a sequência de pi, onde se vai encontrar tanta especialidade em tons de negro não compreendo eu, continuo somente a puxar a mesma saia do armário, tão politicamente correcta como os sapatos rasos que substituo pontualmente por uns parecidos mas não iguais e de preferência não comprados nalgum franchising. Mas enfim, não deixo de ceder a essa standartização.
Para tarefas mais enérgicas, tendo perigosamente para o rosa, em vários degradés doces e delicodoces, lisos, direitos e em perfeita conjunção com as peúgas e os ténis e a mala de desporto, tendo como único ponto de discórdia o verde alface que por vezes se revela. Poucas vezes, normalmente é abafado pelo preto e pelo azul escuro.
Suiço castanho, seja em tom de chocolate ou avelã, salvo raras excepções de inclusão de padrões muito simples e pouco expansivo. Nunca aprendi bem quem fica mais gordo com o quê, resumi-me simplesmente a aceitar o tamanho que me fica melhor, revela o melhor decote e as melhores pernas, sem nunca acertar bem se as riscas a direito ou ao alto me fariam menos ofensiva opticamente. As zebras nunca parecem gordas, portanto esse deveria ser o caminho a seguir. Qualquer escanzelada parece ainda mais anoréctica com riscas verticais, qualquer vítima de obesidade parecerá sempre que tem algo mais, a menos que o anjo salvador da Helena Miró e aqueles cintos supressores de spandex lhe alisem um pouco a silhueta.
Interiormente, a coisa não muda muito. Se for relativamente visível, será Barely there. Senão, será Barely there em preto. Mas sempre combinado com o maior festival de cores desde a última edição da Vivienne Westwood, provavelmente intitulada "I just killed a clown". Críticas foram até hoje bastante repreensivas, mas sem sucesso, o estampado hippie dá alento a qualquer derriére cerca de três ou quatro tamanhos acima da aparente publicidade infantil da Tezenis e da rigidez dos anúncios anti celulite - que só resultavam se trouxessem um airbrush incluindo. Praga maior, é ver que cada vez mais cedo se sente aquilo que se pensava que só as nossas mães teriam. E que elas quase não têm.
Eventualmente, e porque o tempo estival permite, tenho verde alface - intercalado com preto, atenção - e sabe-se lá por qualquer motivo de insanidade, um toque de azul forte em standby porque não tenho sapatos que combinem e o preto combinado com 40 graus derrete qualquer boa intenção. A menos que seja uma modesta abaya - mais uma vez, disponível em tons de preto ou azul muito escuro.
Entretanto, ponderei e pintei as unhas de uma cor apelidada de mistério - porque lá está, uma mente masculina vai olhar e dizer que é vermelho escuro, e entretanto vai receber um olhar fulminante e mudar para um rosa giro, numa vâ tentativa de se desculpar. As mulheres irão tentar determinar se será algo na senda do Coral Romance da Rimmel, Lotus Rouge da Chanel mas não tão perto da Purple Rose do YSL.
Drama, porque a roupa que tenho combinada para amanhã é verde.
Onde actualmente impera o democrático preto que vai com tudo e não vai com nada, qual gótico deprimido que se funde com o background dos wallpapers do twilight. Afinal de contas todas as lojas dos shoppings vendem tons pastel e floridos repetidos com mais precisão que a sequência de pi, onde se vai encontrar tanta especialidade em tons de negro não compreendo eu, continuo somente a puxar a mesma saia do armário, tão politicamente correcta como os sapatos rasos que substituo pontualmente por uns parecidos mas não iguais e de preferência não comprados nalgum franchising. Mas enfim, não deixo de ceder a essa standartização.
Para tarefas mais enérgicas, tendo perigosamente para o rosa, em vários degradés doces e delicodoces, lisos, direitos e em perfeita conjunção com as peúgas e os ténis e a mala de desporto, tendo como único ponto de discórdia o verde alface que por vezes se revela. Poucas vezes, normalmente é abafado pelo preto e pelo azul escuro.
Suiço castanho, seja em tom de chocolate ou avelã, salvo raras excepções de inclusão de padrões muito simples e pouco expansivo. Nunca aprendi bem quem fica mais gordo com o quê, resumi-me simplesmente a aceitar o tamanho que me fica melhor, revela o melhor decote e as melhores pernas, sem nunca acertar bem se as riscas a direito ou ao alto me fariam menos ofensiva opticamente. As zebras nunca parecem gordas, portanto esse deveria ser o caminho a seguir. Qualquer escanzelada parece ainda mais anoréctica com riscas verticais, qualquer vítima de obesidade parecerá sempre que tem algo mais, a menos que o anjo salvador da Helena Miró e aqueles cintos supressores de spandex lhe alisem um pouco a silhueta.
Interiormente, a coisa não muda muito. Se for relativamente visível, será Barely there. Senão, será Barely there em preto. Mas sempre combinado com o maior festival de cores desde a última edição da Vivienne Westwood, provavelmente intitulada "I just killed a clown". Críticas foram até hoje bastante repreensivas, mas sem sucesso, o estampado hippie dá alento a qualquer derriére cerca de três ou quatro tamanhos acima da aparente publicidade infantil da Tezenis e da rigidez dos anúncios anti celulite - que só resultavam se trouxessem um airbrush incluindo. Praga maior, é ver que cada vez mais cedo se sente aquilo que se pensava que só as nossas mães teriam. E que elas quase não têm.
Eventualmente, e porque o tempo estival permite, tenho verde alface - intercalado com preto, atenção - e sabe-se lá por qualquer motivo de insanidade, um toque de azul forte em standby porque não tenho sapatos que combinem e o preto combinado com 40 graus derrete qualquer boa intenção. A menos que seja uma modesta abaya - mais uma vez, disponível em tons de preto ou azul muito escuro.
Entretanto, ponderei e pintei as unhas de uma cor apelidada de mistério - porque lá está, uma mente masculina vai olhar e dizer que é vermelho escuro, e entretanto vai receber um olhar fulminante e mudar para um rosa giro, numa vâ tentativa de se desculpar. As mulheres irão tentar determinar se será algo na senda do Coral Romance da Rimmel, Lotus Rouge da Chanel mas não tão perto da Purple Rose do YSL.
Drama, porque a roupa que tenho combinada para amanhã é verde.
04 Abril 2011
cardboard orange
De todas as vezes que se pede ao meu irmão que pinte, ele nega-se sempre.
Motivo aparente simples, o de não trabalhar a soldo mas sim a cargo da inspiração do momento.
Percebi que o mesmo ocorre comigo, salvo o irritante facto de ter as melhores ideias em momentos críticos em que puxar de um bloco de notas para apontar algo seria um faux pas capaz de estilhaçar o melhor cristal.
Eventualmente, não serei capaz de resistir.
Chama-lhe amor à arte, ao que parece. E desapego à vida, por arrasto.
Motivo aparente simples, o de não trabalhar a soldo mas sim a cargo da inspiração do momento.
Percebi que o mesmo ocorre comigo, salvo o irritante facto de ter as melhores ideias em momentos críticos em que puxar de um bloco de notas para apontar algo seria um faux pas capaz de estilhaçar o melhor cristal.
Eventualmente, não serei capaz de resistir.
Chama-lhe amor à arte, ao que parece. E desapego à vida, por arrasto.
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